“Os homens não tropeçam nas montanhas, mas nos montinhos.” A frase, popularmente atribuída a Confúcio, descreve bem o que aconteceu com a Bolsa brasileira em 2026. No início do ano, parecia que finalmente havia chegado a vez do Brasil.
As ações negociavam a preços considerados atrativos, o fluxo estrangeiro voltava ao país e muitos investidores acreditavam que a esperada queda dos juros seria o combustível para uma recuperação mais forte do mercado.
O Brasil aparecia entre as apostas preferidas de diversas casas de análise. Poucos meses depois, a realidade mostrou que o caminho seria mais difícil.
O Ibovespa acumula até esta quarta-feira (10) valorização próxima de 5% em 2026. O resultado não é ruim, mas está longe do entusiasmo observado no início de 2026.
Mais surpreendente é que o principal índice da Bolsa brasileira voltou a ficar atrás do S&P 500, que sobe cerca de 6% no mesmo período, apesar de muitos investidores considerarem o mercado americano caro depois de anos consecutivos de valorização.
A frustração não veio de um único grande evento. Veio de vários fatores que, somados, mudaram a direção do mercado.
Uma das principais dúvidas dos investidores é simples: se os juros estão elevados tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, por que as bolsas estão apresentando comportamentos tão diferentes?
Para responder a esta pergunta e outras dúvidas, conversei nesta quarta-feira com Felipe Arslan, gestor da Morada Capital.
Segundo ele, a resposta está menos no nível dos juros e mais naquilo que eles representam em cada país. Ele explica que nos Estados Unidos, os juros estão elevados, mas a economia continua crescendo, as empresas seguem aumentando lucros e os investidores mantêm confiança na capacidade de geração de riqueza das companhias.
No Brasil, os juros elevados refletem outra realidade. Representam a necessidade de compensar riscos fiscais, políticos e econômicos que continuam presentes no horizonte. E essa diferença ajuda a justificar por que o capital global continua encontrando motivos para permanecer nos Estados Unidos.
Além da remuneração mais elevada dos títulos públicos americanos, as grandes empresas de tecnologia seguem entregando resultados robustos. O crescimento da inteligência artificial reforçou ainda mais essa dinâmica. Segundo Arslan, os hedge funds voltaram a aumentar exposição ao setor, ampliando o fluxo de recursos para o mercado americano.
Enquanto isso, a Bolsa brasileira enfrenta um problema adicional: a falta de compradores locais. Com a Selic em 14,50% ao ano, o investidor doméstico encontra alternativas de renda fixa capazes de oferecer retornos elevados com risco significativamente menor.
O resultado é que boa parte da sustentação recente da Bolsa veio do investidor estrangeiro, tornando o mercado mais dependente do humor internacional. Nos primeiros 70 dias úteis do ano, entraram R$ 69 bilhões de capital internacional. Mas, nos 35 dias úteis seguintes até a última sexta-feira, saíram R$ 29 bilhões de recursos estrangeiros.
O cenário fiscal também continua exercendo pressão sobre os ativos. As NTN-Bs (Tesouro IPCA) seguem operando em taxas historicamente elevadas, sinalizando que os investidores ainda exigem um prêmio relevante para financiar o governo brasileiro no longo prazo. Quanto maior esse prêmio, menor tende a ser o valor atribuído aos ativos de risco.
Há ainda a incerteza política. Embora as eleições presidenciais ainda não estejam no centro do debate, os investidores já procuram antecipar os possíveis rumos da política econômica a partir de 2027. Sempre que o futuro se torna mais difícil de prever, o mercado exige uma remuneração maior para assumir riscos.
Na visão de Arslan, a combinação desses fatores ajuda a explicar por que a Bolsa brasileira perdeu parte do brilho observado no início do ano e por que a distância para o mercado americano pode continuar aumentando. Segundo ele, o posicionamento da Morada Capital em seu fundo contempla justamente essa possibilidade.
Isso não significa que o mercado brasileiro esteja condenado a um desempenho inferior. Os ciclos mudam, os fluxos mudam e a percepção dos investidores também muda. Mas a experiência recente deixa uma lição importante.
Durante anos, muitos investidores aprenderam que juros altos são ruins para as bolsas. Em 2026, os mercados mostraram que a realidade é mais complexa. Os Estados Unidos e o Brasil convivem com juros elevados, mas os investidores enxergam histórias completamente diferentes.
No fim, investidores não compram apenas ações. Compram expectativas sobre o futuro. E hoje, gostemos ou não, o mercado continua enxergando um futuro mais previsível nos Estados Unidos do que no Brasil.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
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