Um servidor de alto escalão do Banco Central orientou Daniel Vorcaro sobre argumentos que deveriam ser apresentados em uma reunião com o então presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto, enquanto o dono do Banco Master articulava operações de interesse do conglomerado. Meses depois, o BC, ainda sob a presidência de Campos Neto, autorizou a transferência do controle da Will Financeira, conhecida como Will Bank, para o Grupo Master. As mensagens constam de relatório da Polícia Federal que investiga uma suposta estrutura de favorecimento a Vorcaro dentro da autoridade monetária.
O episódio ocorreu em 21 de dezembro de 2023. Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização que naquele momento ocupava função no Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, enviou a Vorcaro uma lista de pontos que poderiam ser apresentados em uma conversa com o “Presi”. Em depoimento à Polícia Federal, Paulo Sérgio confirmou que a referência era a Roberto Campos Neto.

Entre as orientações estava a sugestão de que Vorcaro explicasse como o Will Bank poderia complementar os negócios do grupo por meio da oferta de contas e serviços de pagamento aos clientes do Credcesta, braço voltado principalmente ao crédito consignado. Segundo os documentos analisados pela PF, a estratégia poderia alcançar uma base de quase 4 milhões de clientes.
A Polícia Federal interpreta os diálogos como parte de uma atuação que ultrapassaria a interlocução institucional normal entre agentes do mercado financeiro e servidores do regulador. Em relatório de 27 de agosto de 2026, os investigadores afirmaram que Paulo Sérgio teria atuado como uma espécie de “consultor informal” de Vorcaro, orientando estratégias, revisando documentos e indicando como determinados assuntos deveriam ser apresentados ao Banco Central e à sua diretoria.
A negociação envolvendo o Will avançou pouco depois. A compra foi anunciada pelo Master em fevereiro de 2024. Documentos contábeis da Will apontam que a transferência de controle recebeu aprovação do Banco Central em 29 de maio daquele ano. A operação foi efetivada em 21 de agosto de 2024, quando a Will Financeira passou formalmente ao controle do Grupo Master. A decisão do BC referente à autorização foi publicada no Diário Oficial da União em 30 de agosto.
A sequência temporal passou a ser examinada pelos investigadores diante das suspeitas sobre a relação mantida por Vorcaro com servidores responsáveis justamente por áreas de fiscalização e supervisão bancária. No relatório da PF, a corporação afirma que as orientações relacionadas ao Will, independentemente de terem sido efetivamente utilizadas por Vorcaro na reunião, antecederam a concretização da aquisição.
Isso não significa, no entanto, que a investigação tenha concluído que Roberto Campos Neto participou da suposta consultoria ou tenha autorizado a operação em razão das orientações dadas a Vorcaro. O material divulgado até agora concentra as suspeitas sobre a atuação de Paulo Sérgio e de Belline Santana, então integrantes da estrutura de supervisão do BC. A autorização regulatória foi concedida pela instituição durante a gestão de Campos Neto, mas os elementos disponíveis não permitem atribuir automaticamente ao ex-presidente responsabilidade pelas condutas investigadas dos servidores.
A relação de Paulo Sérgio com Vorcaro é examinada em uma frente mais ampla da investigação. Segundo a PF, o servidor teria auxiliado o banqueiro não apenas no caso Will Bank, mas também em negociações envolvendo o Banco Voiter, o Letsbank, alterações regulatórias e documentos que seriam posteriormente apresentados ao próprio Banco Central.
Os investigadores também apuram suspeitas de que Paulo Sérgio e Belline Santana tenham recebido vantagens de Vorcaro enquanto exerciam funções no BC. Relatório da PF afirma que Paulo Sérgio foi beneficiado com despesas ligadas a uma viagem à Disney, enquanto Belline teria recebido pagamentos recorrentes e benefícios em viagens. Os dois negam o recebimento de vantagens ilícitas e afirmam ter elementos para demonstrar que despesas pessoais foram custeadas com recursos próprios.
No caso de Belline, a Polícia Federal sustenta que ele recebeu valores de empresas relacionadas a Vorcaro e teria atuado como consultor informal do banqueiro. A defesa afirma que os pagamentos estavam relacionados a um projeto social chamado “Jovens Potentes”, voltado à capacitação de jovens de comunidades periféricas, e nega que houvesse contrapartida relacionada às funções desempenhadas no Banco Central.
As investigações também identificaram outras situações em que os dois servidores teriam levado demandas do Master à cúpula do Banco Central. O atual diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, afirmou à PF que Paulo Sérgio e Belline solicitaram que a autoridade monetária interviesse junto à Mastercard quando a empresa ameaçava romper sua relação com o Will Bank. Aquino disse não ter dúvida de que a demanda tinha origem em Vorcaro.
Roberto Campos Neto foi chamado pela Polícia Federal para prestar depoimento como testemunha no inquérito que apura o possível favorecimento ao Banco Master por integrantes da autoridade monetária. Também foram chamados o atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, o diretor Ailton de Aquino e o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual. A condição de testemunha significa que, até o momento, Campos Neto não é apontado como investigado nessa frente.
O caso ganhou peso adicional porque a situação financeira das instituições envolvidas se deteriorou posteriormente. Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras empresas do conglomerado, citando grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico financeira e violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
A Will inicialmente permaneceu funcionando, na tentativa de encontrar uma solução que preservasse suas operações. A alternativa não prosperou. Em 21 de janeiro de 2026, já durante a gestão de Gabriel Galípolo, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira, apontando insolvência, comprometimento de sua situação econômico financeira e o vínculo com o Banco Master. Dois dias antes, a instituição havia deixado de cumprir compromissos com a Mastercard, o que levou ao bloqueio de sua participação no arranjo de pagamentos.
A investigação da Polícia Federal busca agora esclarecer até que ponto os contatos entre Vorcaro e servidores do Banco Central representaram relações institucionais legítimas ou uma estrutura paralela montada para oferecer ao banqueiro acesso privilegiado, informações internas e auxílio na defesa de interesses privados perante o próprio órgão responsável por fiscalizá lo.

