Imagine entrar em um restaurante e encontrar um prato custando R$ 5.000. Curioso, você pergunta ao garçom o motivo. Ele responde: tem arroz, batata frita e wagyu. A pergunta não é se os ingredientes são bons. A pergunta é se o preço faz sentido.
Foi exatamente essa sensação que tive ao ler o prospecto de abertura de capital da SpaceX, divulgado em 20 de maio. A companhia apresentou uma receita consolidada de US$ 18,7 bilhões em 2025. Até aqui, nada extraordinário. O extraordinário está na avaliação, divulgada na mídia, que o mercado parece disposto a atribuir ao negócio: aproximadamente US$ 1,7 trilhão. Se confirmado, seria o maior IPO da história.
Antes de prosseguir, um esclarecimento importante. Este artigo não é uma recomendação de compra nem de venda. A ação pode subir muito após a estreia. Talvez até mais do que muitos imaginam. Quando uma empresa admirada oferece ao mercado apenas uma pequena parcela do seu capital, a escassez pode impulsionar os preços. Mas preço e valor são conceitos diferentes.
Ao valuation esperado, o investidor estará pagando aproximadamente 91 vezes a receita anual da companhia. Para efeito de comparação, esse é um múltiplo normalmente reservado para negócios considerados raros, revolucionários e com perspectivas excepcionais de crescimento por muitos anos.
É aqui que a metáfora do prato começa a fazer sentido. O arroz é a Starlink. Em 2025, a divisão de conectividade gerou US$ 11,4 bilhões de receita, US$ 4,4 bilhões de lucro operacional e cerca de US$ 7,2 bilhões de Ebitda ajustado. É o negócio que gera caixa, financia investimentos e sustenta boa parte da estrutura da companhia. Mas continua sendo conectividade.
Não há nada de errado nisso. Água, energia elétrica, telefonia e internet são alguns dos negócios mais importantes do planeta. O problema é que mercados de infraestrutura raramente sustentam múltiplos extraordinários. O mundo desenvolvido já é amplamente coberto por fibra óptica. As redes móveis continuam avançando. A conectividade tende a se tornar cada vez mais abundante. Pode existir o melhor arroz do mundo, mas ninguém costuma pagar preço de wagyu por ele.
A batata frita é a operação espacial. Trata-se provavelmente do negócio mais fascinante da companhia. A SpaceX revolucionou o setor de lançamentos, reduziu custos e hoje domina grande parte da atividade espacial global. O potencial é enorme. Mas, como acontece com toda boa batata frita, parte dos ingredientes fica escondida na cozinha. E é aqui onde tem o risco. Em 2025, essa divisão gerou US$ 4,1 bilhões de receita, registrou prejuízo operacional de US$ 657 milhões e consumiu aproximadamente US$ 3 bilhões em pesquisa e desenvolvimento apenas no programa Starship.
O futuro pode ser brilhante, mas boa parte desse valor ainda está baseada em promessas que precisam se transformar em resultados.
Por fim, chegamos ao Wagyu: a inteligência artificial. A divisão de IA gerou US$ 3,2 bilhões de receita em 2025, mas acumulou prejuízo operacional de US$ 6,4 bilhões. Além disso, consumiu US$ 12,7 bilhões em investimentos no período, mais do que as divisões espacial e de conectividade somadas.
Apesar disso, é justamente a IA que parece explicar boa parte do entusiasmo do mercado. Porque a IA não está sendo avaliada pelo que produz hoje. Está sendo avaliada pelo que poderá produzir no futuro. E talvez seja exatamente aí que esteja a principal reflexão deste IPO.
A Starlink gera os lucros. A SpaceX gera o fascínio. A IA gera a narrativa. Talvez Elon Musk esteja certo. Talvez a Starship transforme a economia espacial. Talvez o Grok se torne uma das inteligências artificiais mais relevantes do planeta. Talvez as ações dobrem de valor após a abertura de capital. Ou caiam pela metade. Nada disso é impossível.
Mas quando um investidor aceita pagar aproximadamente 91 vezes a receita anual de uma empresa, ele deixa de analisar apenas o que está no prato e passa a precificar aquilo que o chef promete servir no futuro. E, nos investimentos, poucas coisas custam mais caro do que expectativas.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
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