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Quem está em uma situação melhor: EUA ou Europa? – 15/07/2026 – Martin Wolf

redacao by redacao
15/07/2026
in Últimas Notícias
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Quem está em uma situação melhor: EUA ou Europa? – 15/07/2026 – Martin Wolf
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A visão geral, não apenas nos Estados Unidos, é de que a economia europeia contemporânea é um pato manco. Como observou o vencedor do Nobel Paul Krugman em um texto recente no Substack sobre essa questão, que se baseia em um importante trabalho anterior de Seth Ackerman, “há… uma percepção generalizada de que a Europa está vivendo de suas glórias passadas, de que está ficando para trás em relação aos Estados Unidos e à China de maneiras que minarão sua capacidade de manter sua posição econômica no mundo”.

De fato, justamente esse temor anima relatórios produzidos recentemente na Europa, notadamente a análise altamente influente de Mario Draghi, publicada em 2024.

Fazer tais comparações é difícil. Não há dúvida, por exemplo, de que os EUA há muito estão em outro patamar quando se trata de tecnologias digitais avançadas e, hoje em particular, de inteligência artificial. Da mesma forma, ser um Estado único dá aos EUA uma vantagem insuperável quando se trata de criar e exercer instrumentos de poder nacional.

Ao mesmo tempo, devemos lembrar aquelas palavras ousadas sobre “vida, liberdade e busca da felicidade” na Declaração de Independência. A expectativa de vida para homens americanos era de 76,5 anos em 2024, contra uma média de 80,5 em países comparáveis de alta renda. Para as mulheres, era de 81,4 contra 84,8. E isso apesar de gastar uma proporção muito maior de seu PIB em saúde.

A taxa de homicídios nos EUA foi de 5,9 por 100 mil habitantes em 2023, contra 1,3 na França e 0,9 na Alemanha. Sua população carcerária era de 542 por 100 mil habitantes em 2023, contra 130 na França e 69 na Alemanha. Assim, se adotarmos uma visão mais ampla de bem-estar humano, os EUA estão muito longe de ser superiores.

Na verdade, é possivelmente o contrário se medirmos pelos objetivos de seus fundadores. Mas e quanto à economia definida estritamente como a capacidade de produzir os bens e serviços medidos no PIB?

Aqui, argumenta Krugman, encontramos um paradoxo fascinante, que também contradiz a sabedoria convencional do fracasso econômico europeu. Ele sugere que há duas maneiras de comparar o desempenho do PIB: crescimento do PIB real per capita ao longo de um período; e o nível relativo do PIB per capita em qualquer ano específico.

Acontece que, se compararmos os EUA com a zona do euro em termos de crescimento desde 2000, o desempenho americano é amplamente superior. Mas se compararmos o PIB per capita relativo, isso não é verdade: o PIB per capita da Zona do Euro aumentou em relação ao dos EUA.

Como é possível uma economia crescer mais rápido que outra e não acabar relativamente mais rica do que no início? Para entender isso, é preciso abordar as diferenças entre o que está sendo medido e como. Essas diferenças mostram a complexidade de toda essa contabilidade.

O que explica a discrepância no crescimento do PIB per capita? Impressionantemente, embora o setor de tecnologia representasse apenas 9,2% do PIB dos EUA, contra 5,4% do PIB da UE, quase metade da diferença no crescimento da produtividade entre as duas economias foi explicada por diferenças no tamanho relativo desse único setor.

Além disso, o crescimento da produtividade no setor de tecnologia da UE (relativamente pequeno) também ficou abaixo da produtividade americana. Assim, no geral, apenas o setor de tecnologia responde por bem mais da metade da diferença total no crescimento do PIB per capita.

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Uma explicação para a diferença são os problemas na medição do crescimento. O crescimento de produtividade extraordinariamente rápido reportado no setor de tecnologia dos EUA depende de fazer ajustes “hedônicos” nos preços dos produtos. Isso envolve calcular o valor do aumento do poder de processamento para os consumidores. Mas tais medidas são inerentemente muito incertas.

Por essa razão, o maior crescimento da produtividade no setor de tecnologia dos EUA (e, portanto, do PIB per capita americano) é questionável, não porque esteja errado, mas porque é uma questão de julgamento. Note, crucialmente, que o crescimento da produtividade de setores que não são de tecnologia é bastante similar nas duas economias.

O problema de comparar o PIB per capita em paridade de poder de compra entre países em qualquer momento também é complicado, mas mais simples. Não é preciso comparar o carro de hoje com um de duas décadas atrás, mas um nos EUA e na Europa em qualquer ano específico e então avaliar ambos pelo mesmo preço.

O Programa de Comparação Internacional do Banco Mundial faz isso há mais de meio século. É a única maneira sensata de comparar padrões de vida entre países: o PIB nominal per capita é muito volátil e, acima de tudo, distorce grosseiramente as comparações de bens não comercializáveis. Entre duas economias relativamente similares, como EUA e Europa, essas medidas serão razoavelmente robustas.

Há também algumas complexidades introduzidas porque o consumo real europeu por hora cresceu mais lentamente do que nos EUA. Mas isso também pode ser parcialmente explicado por diferenças nos ajustes hedônicos. Além disso, observa Krugman, as comparações diretas de consumo per capita mostram o mesmo padrão ao longo do tempo que o PIB per capita.

Então, o que fundamentalmente explica o paradoxo? A resposta, como um modelo simples explica, é que o setor de tecnologia dos EUA é um provedor de um bem público global: a tecnologia mais avançada. Isso beneficia o mundo não tecnológico igualmente, em casa e no exterior, e assim sustenta os padrões de vida relativos. É claro que os proprietários de empresas de tecnologia americanas se beneficiam de sua lucratividade. Mas eles podem (e vivem) em qualquer lugar.

A conclusão é que a Europa não sofre nenhuma desvantagem em bem-estar relativo em comparação com os EUA. Mas —um porém crucial— ela é de fato muito mais fraca. Não menos importante, sua capacidade de explorar os avanços tecnológicos feitos nos EUA depende do acesso aos fornecedores americanos. As grandes ameaças que a Europa enfrenta não são estritamente econômicas. São as de segurança e defesa. Ela deve enfrentá-las.



Fonte de Matéria – https://redir.folha.com.br/redir/online/mercado/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/martinwolf/2026/07/quem-esta-em-uma-situacao-melhor-eua-ou-europa.shtml

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