O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, disse esperar que a disputa tarifária entre Brasil e Estados Unidos seja resolvida e levada “em breve” ao presidente americano, Donald Trump, e reafirmou que o governo brasileiro não vê justificativa para as sobretaxas.
A avaliação foi feita nesta quarta-feira (3), em Paris, à margem da reunião ministerial da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), depois de Washington anunciar duas rodadas de tarifas contra produtos brasileiros em uma mesma semana.
As duas medidas saíram de investigações conduzidas sob a Seção 301 —dispositivo da legislação comercial americana que permite punir o que os EUA consideram práticas desleais de parceiros.
Na terça (2), o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) propôs uma tarifa de 25% por práticas comerciais consideradas injustas; na madrugada de quarta (3), outra de 12,5% por suposto uso de trabalho forçado, atingindo o Brasil, mais 58 países e a União Europeia. Somadas, as taxas podem elevar a sobretaxa a 37,5% sobre parte da pauta exportadora brasileira. A decisão final cabe a Trump, com prazo até 15 de julho.
Na abertura da sessão ministerial, Vieira foi procurado por Jamieson Greer, representante de comércio dos EUA e responsável pelas investigações. Segundo o ministro, Greer disse que as conversas com o Brasil vinham sendo boas e que pretendia mantê-las. Vieira afirmou ter respondido que o Brasil tem o mesmo interesse, sobretudo após a divulgação dos relatórios finais —apresentados antes do prazo de 30 dias acertado por Lula e Trump em maio, em Washington, para o início das negociações.
“Eu falei: pois é, que ótimo, então vamos continuar conversando e acertando, vamos negociar”, relatou.
Questionado se interpretava a fala de Greer como positiva, Vieira respondeu: “Acho que não tem interpretação, tem a resposta. Ele disse que estão prontos a negociar, como nós também estamos.” O ministro afirmou haver “um longo histórico de conversas, de reuniões virtuais, de reuniões presenciais” desde o início de 2025, quando surgiram as questões tarifárias, e disse que a disposição se estende a outros temas, como o combate ao crime organizado, levantado por Lula nos dois últimos encontros com Trump.
Sobre o que ainda falta para um acordo, Vieira indicou que o ponto pendente seria de compreensão, não de mérito. Disse esperar que o tema “seja solucionado e levado ao presidente Trump em breve”.
O ministro reafirmou que o Brasil não vê base para as tarifas. Afirmou que, durante as consultas da Seção 301, o governo respondeu a mais de 80 perguntas com uma equipe que reuniu todos os ministérios envolvidos e prestou as informações necessárias. O principal argumento da defesa brasileira, segundo ele, é a inexistência de superávit comercial com os EUA. “Somos nós que temos um grande déficit”, disse, ao citar um saldo negativo de US$ 450 bilhões em 15 anos. Para Vieira, isso retira a justificativa para medidas de proteção ao comércio americano.
A respeito de uma eventual conversa entre Lula e Trump na cúpula do G7, marcada para Evian (França), de 15 a 17 de junho, Vieira disse não haver nada agendado, mas lembrou que o presidente brasileiro reafirmou publicamente que participará do encontro. “Havendo ocasião, havendo uma reunião, conversarão”, afirmou. Será a 11ª vez que Lula é convidado para o diálogo com países não integrantes do grupo; a primeira ocorreu há 23 anos, também em Evian.
Questionado se houve constrangimento na OCDE pela presença de Greer quando vários países atingidos pelas medidas estavam em Paris, Vieira disse não ter notado nenhum.
O ministro classificou como “muito estratégico” o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, cujo pilar comercial entrou em vigor provisório em 1º de maio. Disse que o entendimento ganhou urgência no fim da negociação pela necessidade de o Brasil ampliar sua rede de acordos com grandes centros de comércio. “O acordo é muito importante e continua a ser muito importante”, afirmou.
Vieira disse ter mantido uma série de encontros bilaterais em Paris e citou contatos exploratórios para novos acordos do Mercosul com o Reino Unido e Japão. Afirmou ter chegado de uma reunião do diálogo estratégico com a China, em que também foram tratados temas comerciais, e avaliou os dois dias de reunião como produtivos.
Sobre um prazo para encerrar a disputa tarifária, foi direto: “Data precisa, não tem. Nós vamos continuar conversando.” Disse que, quando retornar ao Brasil, terá reuniões com os ministérios do Comércio e da Fazenda, entre outros, para dar sequência às negociações.

